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Caminhando pela Psicologia



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Entrevistas


Psicologia Clinica
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Psicologia do Desenvolvimento





Uma Perspectiva Clínica...



Esta entrevista foi realizada a três psicólogos, que pela sua complementaridade de discurso, não diferencio as suas falas. Fica, aqui, uma breve apresentação de cada um deles: drª. Elisabete, formada em psicologia clínica, trabalha no centro de actividades ocupacionais, de Leiria; drª Ana Paula formada em psicologia clínica, trabalha na Cercilei, na valência de formação profissional;drº Ricardo, psicólogo clínico, trabalha no CAO (Centro de Actividades Ocupacionais) em Porto de Mós e na IP (Intervenção Precoce) de Leiria.


LC- Uma pequena definição de uma psicologia clínica...

EAR- É uma área mais abrangente do que todas as outras, estamos mais habilitados para trabalhar em tratamento. A palavra clínica, restringindo, pode ser para consultório; para quando houver qualquer desvio em termos de comportamento, poder tratar. É uma intervenção na área da saúde.
No fundo é ajudar uma pessoa que não estudar bem a ficar bem, mas muitas vezes dizem que é para malucos, mas não é isso. Aliás a pessoa normal deve ir ao psicólogo. A pessoa que tem uma psicose, uma esquizofrenia é mais pelo lado da psiquiatria. É mais a área que se aproxima, pelas noções teóricas que nós temos que ter nesta área, da médica, da saúde. No fundo é: os médicos tratam da doença, nós tratamos da saúde mental.
Eles usam os fármacos e nós temos que intervir mais na prática.
Nós ouvimos as pessoas. Uma professora minha [drª Ana Paula] dizia que a maior parte das pessoas que vão ao médico de família se fossem ao psicólogo deixavam de ir ao médico de família, principalmente as donas de casa, porque sentem-se cheias, desinteressadas.

LC- Na formação de um psicólogo clínico, o que considera mais importante?
EAR- Saber escutar o outro; qualidade da personalidade da pessoa… Para já temos que ter formação académica em psicopatologia, antes disso temos que ter um desenvolvimento e funcionamento da personalidade, do comportamento, depois os desvios e em quaisquer problemas que possam surgir. Depois nas estratégias, temos que ter uma teoria compreensiva de tudo isso e conhecer as técnicas da mente e a nível neurológico e depois as de intervenção e saber aplicá-las.

LC- Na universidade há várias cadeiras, quais as mais interessantes?
EAR- Do curso em Coimbra, temos sempre todos os anos cadeiras que gostamos e cadeiras que detestamos, que são uma "seca". Depende dos professores que as dão e de nós.
Quanto mais perto do final do curso estamos, mais interessantes as cadeiras se tornam, começam a surgir as coisas mais práticas, e que nos vão ser mais úteis e, por isso, mais interessantes.
No ISPA, desde o primeiro ano fazemos trabalhos práticos, o meu primeiro trabalho foi sobre o autismo, fizemos mesmo um trabalho com os autistas. Tínhamos sempre um trabalho prático no primeiro, segundo e terceiro ano. Agora é capaz de ser diferente, mas eram três anos, depois escolhíamos a área para que queríamos ir. A ligação à prática é muito importante, porque vamos percebendo para que estamos a estudar tudo aquilo. No meu tempo só no último ano é que tivemos ligação à prática. Antes disso nunca tinha tido nada. Se houvesse um complemento entre a parte teórica e a parte prática, era muito mais fácil.
Em Coimbra, no terceiro ano tínhamos umas aulas no hospital, no serviço de psiquiatria e depois o professor trazia mesmo doentes que falavam connosco, respondiam às nossas perguntas e assim, ficávamos com um pouco da visão do que é a prática. Tivemos duas ou três aulas na prisão, e tínhamos umas aulas quando era psicologia do desenvolvimento numa pré-escola, mas era pouca coisa.

LC- Depois desta abordagem podemos dizer que só temos noção do que é Psicologia Clínica depois de acabar o curso, na prática…

Não, nos últimos anos, porque já se começa com o estágio e as cadeiras de opção já são mais interessantes.

LC- Como foi a adaptação ao mundo do trabalho?
Eu fiz o estágio da escola no Hospital de Santa Maria, durante nove meses, como achei que era pouco, fiz um estágio de um ano num estabelecimento de adolescentes, de reinserção social. Apesar de ser um estágio voluntário foi um complemento, foi muito bom.
Em termos de adaptação, só aprendemos a ser psicólogos quando saímos para o mundo do trabalho porque nessa altura sentimo-nos ignorantes.
Fazemos um estágio numa determinada área e depois quando vamos trabalhar, a nossa experiência não corresponde àquilo que aprendemos no estágio; e se, de facto, é no estágio que mais se aprende e se depois não formos para aquela área específica temos que aprender muitas coisas. Por outro lado, os cursos permitem ter essa capacidade e flexibilidade de adaptação, dão-nos as bases.
Na área da psicologia nunca se sabe tudo, estamos sempre a aprender, uma licenciatura não nos dá preparação para lidar com qualquer caso. A todo o momento se estuda. Há sempre casos novos que nos aparecem e temos que ler um pouco mais sobre um determinado tema.
A dificuldade na adaptação ao mundo do trabalho ou do estágio foi o transpor aquilo que tínhamos aprendido para a prática. Eu estive num estágio durante nove meses, e depois fiquei voluntário durante cinco meses na escola EB1 de Queluz, que é uma zona problemática. Tinha cerca de 900 alunos, uma escola primária. A única dificuldade que eu senti foi “será que aquilo que eu estou a fazer é de um técnico ou estou a deixar-me levar por aquilo que eu acho que é o mais correcto?”. Quando fui estagiar, não sabia como me devia comportar enquanto técnico. Havia situações em que me tinham chamado à atenção, porque tinha que separar a parte do coração – porque quem trabalha com estas idades deixa-se sempre influenciar – e a minha dificuldade foi transpor o que tinha aprendido em termos teóricos, para a prática.
Quem trabalha na área clínica devia trabalhar com supervisão, tem que haver alguém que o ajude a separar-se da situação, a ver com uns olhos de fora para não se deixar influenciar. Temos que ter alguém com quem possamos desabafar, por isso é importante trabalhar em grupo. Na mesma instituição haver um grupo de psicólogos que trabalhe em conjunto. Haver sempre alguém que nos oriente com o tratamento de um grupo, sentimos assim mais segurança, muitas vezes é-nos muito difícil aguentar tudo e guardar as coisas…

LC- Que conselho daria a quem pretende seguir psicologia?
EAR- É uma área muito gira, aprende-se muito. Há sempre aquela ideia que quando se fala num café com alguém que nós estamos sempre a avaliar, não é verdade. Toda a gente faz isso, toda a gente selecciona o que é que gosta mais e o que é que gosta menos no outro…é uma aprendizagem que nós fazemos.
É uma área que é muito gira, é uma área em que se tem que estar sempre a estudar e informado. Mas também tem um senão muito grande em termos de colocação de trabalho. Há gente que ainda nos vê como aquele que serve apenas para falar, não é tido muito em conta aquele que trabalha na prática.

Ou ao contrário, como nas escolas acontece muito que é os professores quererem-nos responsabilizar completamente sobre a decisão final dos problemas dos alunos.

Para arranjar trabalho é complicadíssimo. Acho que houve uma altura em que era o curso da moda, e muita gente foi, mas para ser psicólogo não basta ter bons conhecimentos, tem que haver qualquer coisa em termos de personalidade da pessoa: pessoas com empatia, que saibam escutar, tenham boa relação com os outros, sejam sensíveis, bons comunicadores. Não basta serem alunas de 18 ou 19.

LC- Seria possível haver testes psicotécnicos para seleccionar os alunos...?

Não acredito nisso… acho que tem a ver com a pessoa, com o que a pessoa realmente é e sente. Não se pode uniformizar a avaliação das pessoas todas nesse sentido.
Até porque quando se avalia, e então as pessoas com 18 anos que ainda estão em formação, estão em mudança é mais complicado. Também é muito importante, nós, psicólogos, termos um “escape”, já que não temos o tal supervisor, termos sempre um “escape”, chegamos a uma certa altura em que cansa ouvir problemas dos outros. Devemos sempre ter um escape ou a nível do desporto ou seja do que for, uma coisa que a gente goste, senão acabamos por dar em doidos! Até porque os problemas que ouvimos são situações em que às vezes são sociais em que não se pode fazer nada…


LC- Um caso mais especifico que tenha tido durante a sua vida profissional?
EAR- Isso é mais difícil de falar…
Eu [Dr. Ricardo] tive um durante o meu estágio, que era um problema de comportamento e que mantinha tudo influenciado pela família, pelo seio familiar em que a criança, que era um menino de 8 ou 9 anos que tinha comportamentos desde bater aos adultos, asneiras, e tudo aquilo que não devia fazer, fazia porque ele era rei e senhor. Em casa, os castigos nunca eram aplicados quando deviam ser, os bons exemplos não haviam, porque quando aplicamos algum castigo ou quando dizemos não ou sim as coisas tem que ser seguidas de um bom exemplo e ser explicadas. Acompanhei-o durante um ano inteiro. A minha intervenção foi na base de ele sentir segurança e confiança em mim, o que custou muitíssimo tempo para ele me contar certas e determinadas coisas em que eu tive que actuar, tive que falar com ele. Eu andava sempre com uma caixa cheia de brinquedos atrás de mim e muitas vezes tinha que ir jogar à bola e basket com ele para criar uma interacção. Para que ele sentisse confiança em mim e quando ele precisasse de falar, de chorar ou mesmo de silêncio ele vinha ter comigo. Era como se fosse um amigo e não um psicólogo, é tipo aquela frase “o psicólogo é amigo”. Às páginas tantas, os comportamentos agressivos dele começaram na aula e no recreio a atenuar. A agressividade tem um fundo depressivo e o miúdo não se sentia amado por ninguém e assim tem alguém como amigo que é o suficiente para que ele não andasse mais triste, andasse mais estável e não precisasse tanto de estar entretido. Precisava de alguém que o ouvisse e que o entendesse e lhe desse bons exemplos. O modelo que ele não tinha eu tive que substituir. Depois há aquele trabalho que teve que ser feito em casa com a família: chamar o pai e a mãe, conversar individualmente com cada um; na sala com a professora; com as auxiliares, porque ele não vive só ele, tinha a família, tinha o contexto casa, o contexto escola, de ATL e era eu e tudo junto tinha que se estruturar.

Qualquer jovem, criança ou adulto com o qual se trabalha e depois ao final de algum tempo se sinta que o nosso trabalho teve algum efeito positivo, acho que é sempre gratificante.

O que mais mexeu comigo [drª Ana Paula] foi o caso de uma jovem com 16 anos que tinha acabado de sair da escola e que nós soubemos que ela estava a andar com um homem de 40 anos. Ficámos preocupadas e fomos falar com a mãe - só que a mãe, assim como a miúda também tinha deficiência mental ligeira - no sentido de a miúda começar a tomar a pílula ou pôr um implante e a mãe disse que no tempo dela "nunca tinha precisado dessas coisas portanto não valia a pena a miúda usar aquilo". Não podíamos fazer mais nada, primeiro estão os pais.
A miúda engravidou. A nossa preocupação era “como é que esta criança vai criar um filho?”. A mãe não queria esse filho e disse que se no hospital não lhe resolvessem o assunto que iria a uma bruxa! Entretanto nós fomos com ela ao hospital, foi vista pela médica, fizeram-lhe uma ecografia endovaginal e realmente estava grávida. A miúda começou a gritar, chamaram o psiquiatra e acabou por ficar internada. Durante esse tempo houve reunião entre os médicos para decidir se deviam fazer o aborto ou não. Chegaram a um consenso que não faziam. A mãe reagiu de tal forma que ficou proibida de ir ver a filha. Passado um tempo a criança perdeu o bebé. A criança foi colocada num centro de dia, a trabalhar. As coisas não correram bem e puseram-na numa cresce onde tentaram socializá-la, levaram-na para trabalhar no McDonald’s mas às 8h da noite começou a chorar pela mãe e viu-se que não havia condições para ela estar integrada a nível de posto de trabalho.
Apesar de nós podermos e tentarmos ajudar, a sociedade – neste caso os pais – impossibilitaram a nossa acção.

LC- Numa consultam como tentam perceber/captar o problema da pessoa que está à vossa frente?
Eu não lhe chamaria consulta mas sessão ou apoio.
Temos que ter olho, ouvido…temos que ter tudo, porque alguns até nem falam e isso não quer dizer que não tentemos perceber o que é que eles estão a sentir ou o que os está a perturbar. No fundo, não é só na tal sessão que nós vemos, mas usamos outro tipo de fontes de informação (as pessoas que estão com eles todos os dias). Vamos percebendo o que se passa ao longo das várias sessões, não é só uma vez. Muitas vezes temos que estar atentos àquilo que elas não dizem, porque aquilo que dizem nem sempre é o principal motivo. Temos que ter uma atenção muito grande aos comportamentos não verbais, como é que a pessoa exprime aquele sentimento ou aquela situação. Na formação profissional é diferente porque eles já falam, já têm outra compreensão, e o apoio psicológico é feito individualmente ou em grupos, fazendo a terapia de grupo que é muito importante para eles. É muito importante não só perceber o que se passa com eles mas também falar com os pais e com as pessoas com quem eles mantêm relação.

LC- A interacção psicólogo/paciente é bastante importante na resolução dos problemas?
EAR- Em termos de consultório é uma interacção mais formal; no contexto do jardim-de-infância, nós é que temos que nos adaptar.

LC- Modificações que poderiam ser feitas para beneficiar a psicologia clínica na sociedade?
EAR- Se eu tivesse esse poder, faria com que os cursos fossem remodelados no sentido de haver aquela interacção teórico-prática. A tendência é para o número de anos do curso diminuir, não sou completamente contra porque provavelmente se excluirmos uma cadeira daqui outra dali dá para tirar um ano e não se perde assim tanta coisa. Contudo podia manter-se o número de anos e mudar algumas das cadeiras, ter mais estágios nem que sejam apenas estágios de observação para conhecer as várias realidades e as várias áreas.
















Passos de um psicólogo do Desenvolvimento





A Psicóloga Maria José Antunes formou-se pela faculdade de psicologia e ciências de educação da universidade de Coimbra, no ano de 1975. Tem experiência na área da reabilitação em instituições e uma experiência de pós graduação na área clínica.

MB- Poderia dizer em poucas palavras em que consiste a psicologia do desenvolvimento?

MJ- A psicologia do desenvolvimento é um ramo da psicologia que estuda o desenvolvimento da criança até à idade adulta nas suas várias áreas como a linguagem, a comunicação, a atenção, a memória, o pensamento, o desenvolvimento motor e o desenvolvimento psico-afectivo. E compara de alguma forma aquilo que é considerado normativo nas várias idades, e aquilo que poderá já ser considerado um desvio no desenvolvimento.

MB- O que considera mais importante na formação de um psicólogo ?

MJ- O que eu considero mais importante, nas qualidades de um psicólogo são as boas capacidades de escuta, de comunicação com os outros, alguma sensibilidade para poder ouvir o outro e uma boa inteligência emocional, é também importantíssimo uma escuta activa do outro. É essencial uma boa formação académica de base. Nesta é fundamental haver uma ligação bastante activa à pratica e a possibilidade de alguma forma de ter este contacto com a pratica ao longo do curso e ao longo do tempo em que vão sendo dados os conteúdos mais teóricos.

MB- Das várias cadeiras que frequentou na universidade, quais foram as mais interessantes?

MJ- Das que eu mais gostei foram talvez as cadeiras de final de curso porque eram mais ligadas à pratica da psico-patologia, e não tanto as cadeiras iniciais que são cadeiras essencialmente teóricas, sobre a história dos primórdios da psicologia . Assim achei bastante interessantes cadeiras como a psicopatologia infantil e juvenil, a psicologia do desenvolvimento, e algumas cadeiras ligadas à psiquiatria.

MB- Como foi para si a adaptação ao mundo do trabalho ?

MJ- No ultimo ano do curso nós temos já um estagio de um ano e desenvolvemos um trabalho de seminário em que temos de fazer um trabalho de investigação que de alguma maneira já permite um contacto com o mundo do trabalho. O curso já foi tirado há alguns anos, e apesar de o mercado de trabalho já não ser muito vasto na altura talvez não estivesse tão saturado como actualmente. Embora tenha feito um estagio na área do desenvolvimento, da saúde e hospitalar, tenho conseguido colocação no mundo do trabalho em instituições de reabilitação e ensino especial possibilitando trabalhos com as escoas de ensino regular e com as crianças que apresentam problemas de desenvolvimento, e em consequência têm necessidades educativas especiais de carácter permanente. O contacto com o mundo de trabalho é complicado porque não existindo esta ligação à pratica durante todo o curso é bastante complicado o psicólogo encontrar-se sozinho, situação que consegui ultrapassar porque me foi possibilitado fazer um curso na área clínica em que estavam na mesma situação vários psicólogos, onde me era possibilitado haver supervisão clínica e fazer uma formação pós graduação e no fundo poder estar com outros técnicos da mesma área. O que normalmente não acontece, um psicólogo trabalha habitualmente sozinho numa escola, num hospital, em qualquer instituição e muito difícil por vezes conseguir trabalhar em equipa e quando se começa o facto de ter uma pessoa da mesma área connosco é muito importante.

MB- Qual a área de trabalho de um psicólogo com formação na área de desenvolvimento ?

MJ- Um psicólogo com área de formação no desenvolvimento poderá trabalhar na minha óptica, em instituições de ensino especial com crianças com perturbações ou com problemas de desenvolvimento por varias causas, epilepsia, paralesia cerebral, por perturbações na comunicação e na relação como os autistas, com síndroma genético como o síndroma de Down ou outro mais raro... ou ligados ás escolas onde estas crianças também se encontram integradas (são consideradas as crianças com necessidades educativas especiais). Ou ainda na área da saúde ligada com as consultas de desenvolvimento. O meu estagio foi feito nas consultas de desenvolvimento no hospital pediátrico de Coimbra e durante alguns anos foi me possível colaborar e ainda actualmente colaboro com as consultas de desenvolvimento, que são feitas no hospital de Leiria, onde de alguma forma o estudo do desenvolvimento abrange todas as escalas de desenvolvimento que podemos passar ás crianças, sendo estas uma mais valia para se conseguir uma intervenção mais coerente mais eficaz, na intervenção do psicólogo. É fundamental não só o poder ter alguém que de alguma maneira nos supervisione em termos da nossa actuação, como por exemplo psicólogos com uma formação mais experiente, como também a possibilidade de supervisão clinica, ou ainda a possibilidade de trabalho em equipa, numa equipa multidisciplinar onde se possam integrar as visões não só da área médica como da área social e pedagogica. Também um psicólogo com formação na área da desenvolvimento encontra como campo de trabalho uma outra área que depende da instituição, que é a área da intervenção precoce, portanto todo o trabalho que é feito com as crianças até até aos 3 anos e com as suas famílias no sentido de as capacitar para poderem trabalhar com as suas crianças quando são existentes problemas de desenvolvimento.

MB- Poderia falar sobre algum caso significativo que tenha tido de avaliação e intervenção psicológica, ao longo da sua carreira ?

MJ- Como sabe trabalho na área de desenvolvimento, com crianças com necessidades educativas de caracter permanente, cujas condições não possibilitam uma integração plena numa escola de ensino regular. Talvez seja assim, importante falar de um ou dois casos que me impressionaram mais recentemente e que até foram apresentados pela equipa com que trabalho num congresso. Trata-se de uma criança que é portadora de autismo, ou seja com todo um conjunto de dificuldades na área das perturbações, da comunicação e da relação. Cujos pais com alguma formação pedagógica procuraram em Portugal, uma solução dentro daquilo que se chamavam as salas de modelo TISH para poder dar uma melhor qualidade de vida a sua filha. O que não aconteceu, esta criança começou a desenvolver comportamentos de agressividade intensos que fizeram com que ela voltasse a uma instituição tal como no local onde ela anteriormente residia. De alguma maneira o ter conseguido que todos estes comportamentos de agressividade extrema tenham desaparecido nesta criança, e ter conseguido que esta família tivesse uma vida mais equilibrada. foi algo marcante para mim.

MB- Qual a importância das teorias de Winnicot, Froid, Piaget, Spitz etc...para a avaliação psicológica de um caso ? o que é que eles contribuíram para a psicologia do Desenvolvimento ?

MJ- Todos esses autores são marcos e referencias teóricas em termos daquilo que consideramos a psicologia do desenvolvimento, e todos nos dão uma perspectiva muito rica dentro das varias vertentes no desenvolvimento. Por exemplo o Piaget com todas as fases no desenvolvimento do pensamento permite-nos avaliar se uma criança já atingiu alguma maturidade, que de alguma forma também possa permitir que já esteja pronta para a entrada na escola. Spitz ao analisar as relações precoces mãe criança, também se torna fundamental quando nos aparecem crianças com problemas emocionais. Froid é importante na área clinica para podermos passar testes projectivos e poder avaliar a fase de desenvolvimento psico-afectivo em que a criança se encontra. E Winnicot ou Margaret Malher com todas as teorias relativas ao desenvolvimento infantil e à importância de uma mãe suficientemente boa e cem por cento activa para que um bebe se desenvolva de forma saudável.

MB- Relembrando uma situação recente, em que foi retirada uma criança aos pais adoptivos... Considera que ao retirar uma criança da sua mãe adoptiva para a sua mãe biológica, possa afectar de forma determinada o desenvolvimento dessa criança? Porquê? Em que sentido? Quais as consequências?

MJ- uma pergunta difícil, um caso difícil e uma polémica muito grande. Claro que a mãe da criança é a mãe que cuida dela, é a mãe que vai ter com a criança quando ela chora durante a noite porque lhe dói alguma coisa ou é a mãe que alimenta a criança, que a leva à escola. Essa é a mãe, os laços biológicos são importantes seguramente mas não serão os fundamentais. Qualquer perturbação numa relação, qualquer quebra, separação, tem marcas no desenvolvimento da criança e no seu equilíbrio emocional. Tirar uma criança à sua mãe para entregar a alguém a que ela terá de aprender a chamar de mãe, porque simbolicamente nunca foi mãe para ela, seguramente será como derrepente a nós nos tirarem da nossa família e nos dizerem esta não é a tua família estes não são os teus irmãos, esta não é a tua mãe, este não é o teu pai, e agra tens de aprendera viver de novo com alguém que para ti é estranho.


MB- Para terminar... que concelhos daria a quem pretende seguir psicologia ?

Mj- durante o curso estar sempre muito atenta a tudo em que em termos práticos pode ser importante nas aquisições que estão a estudar. Poder, se tal for possível ir contactando sempre com a realidade do mundo de trabalho , ter os pés assentes na realidade escolhendo uma área que corresponda aos interesses mas que também tenha saída em termos do mercado de trabalho. E terem a noção que não é um trabalho fácil, pois é um trabalho que se torna muito duro, muito aliciante mas também muito desgastante, porque é complicado carregarmos com os problemas de vida das outras pessoas...








O Caminho até ao Futuro




Célia Lopes formou-se na Faculdade de Psicologia de Coimbra, já trabalhou em diversas instituições, nomeadamente escolas, e hoje trabalha na Escola Secundária Francisco Rodrigues Lobo como psicóloga de orientação vocacional.


JF - Qual seria a definição breve que daria à Psicologia do Vocacional?

CL - É uma área da psicologia tem como objectivo ajudar o indivíduo (porque não é só com jovens), na orientação da cadeira, portanto a fazer planos em relação ao futuro… Vocacional porque está implícito que se aplique testes para descobrir onde são as áreas onde a pessoa “brilha” mais.

JF - Quais são os objectivos da intervenção do psicólogo na área da psicologia vocacional?

CL - Isso depende da “escola” de cada um. Há psicólogos de orientação vocacional que se orientam mais pelos testes, aliás o psicólogo desta área é muito associado ao teste psicotécnico. Mas os objectivos de maneira geral é ajudar o individuo a descobrir as áreas, (é evidente que se tem de passar sempre alguns testes), e depois planear com ele os diversos passos para conseguir atingir o que pretende. Basicamente é ajudar a pessoa na escolha da profissão, da carreira ou redefinição do percurso vocacional. Muitas vezes as pessoas também nos procuram porque não estão bem, e há psicólogos de orientação vocacional que trabalham nas empresas na avaliação do desempenho, na redefinição dos papéis profissionais.

JF - Que funções exerce?

CL - Nas escolas também fazemos consulta psicológica, portanto avaliam os problemas associados à vida do indivíduo, e em casos graves é claro que se tem de encaminhar, pois nas escolas não há grandes condições para acompanhar uma pessoa de uma forma mais especializada. Centramo-nos a nível do individuo na escolha da profissão, porque o individuo é um todo depois à a questão familiar e psicológico, e aí entram os problemas psicológicos e depois o funcionamento do individuo com o meio profissional, no caso da escola os alunos com a escola e com os professores. De uma maneira mais geral virado para a instituição seja escola ou empresa a melhoria do funcionamento geral, para as pessoas de darem melhor para terem conhecimento dos problemas que cada um tem…

JF - Em que organizações pode intervir?

CL - Em escolas, hospitais, empresas de uma maneira geral… Empresas (de tamanho suficiente para que se justifique a intervenção de um psicólogo de orientação vocacional) onde há muito movimento de pessoas, onde há recrutamento, associado ao emprego e aos recursos humanos…

JF - Quais são os problemas da sociedade actual que justificam a intervenção de um psicólogo vocacional?

CL - No que toca a Portugal, está muito desorganizado em relação à formação que as pessoas têm e aquela que é pedida, porque não é só a falta de emprego tanto que os psicólogos também ajudam os indivíduos na criação do próprio emprego e nas técnicas procura do emprego, não é só essa a questão, mas também a tentativa de orientar as pessoas para profissões que sejam pedidas, porque em Portugal está um bocadinho desorganizado. Continuam a abrir cursos que vão conduzir ao desemprego e as entidades em termos profissionais, continua a haver falta de profissionais em certas áreas. Um dos problemas é um certo desequilíbrio entre a oferta e a procura, penso que os psicólogos de orientação vocacional devem actuar aí. E também por a pessoas hoje em dia por uma questão económica, porque às vezes tem se emprego mas são empregos precários onde se ganha mal, está-se longe da família e então os psicólogos de orientação vocacional também devem trabalhar nesta área na tentativa de acompanhar o individuo no seu percurso (estou me a referir à área dos recursos humanos), trabalhar também a família, a satisfação do individuo, se não está bem o que pode fazer, que outra formação pode tirar, etc…

JF - Quais são os métodos e técnicas usados na sua prática?

CL - Na minha pratica, eu não passo muitos testes! Primeiro que tudo, uma das técnicas que utilizo é a tentativa de perceber o indivíduo/aluno, antes sequer de passar testes, tento perceber o que é que ele quer, o que é que a família pensa, até quando é que quer estudar, porque às vezes é menos produtivo trabalhar a escolha de um curso superior se o aluno não está motivado para isso. Eu estudo muito a história pessoal, claro que não é como se fosse na clínica tentar perceber tudo, mas é importante para mim que perceba o que o aluno pretende do futuro antes de passar os testes. A questão familiar, também é muito importante, o que os pais esperam do futuro dos filhos e depois com certeza que é necessário os testes. Mas estudo muito o indivíduo através da família, às vezes os pais vêm cá, não podem vir mais porque não há assim grande possibilidade… Os testes, normalmente para os alunos com grandes indecisões… Mas o que eu utilizo muito é a informação do mundo profissional, profissões que dão mais saídas, trabalho muito sobre esta base de dar informações e o confronto com o mercado de trabalho, levar o aluno a pensar como se vai sentir nos cursos que elegeu como prioritários…

JF - Em que se baseiam os testes vocacionais?

CL - Basicamente são todos elaborados a partir de questões que fazem a grupos de pessoas. Foram aplicados antes de serem aplicados nas escolas, foram estudados. E estatisticamente chegou-se à conclusão que a maioria das pessoas respondia de determinada maneira e depois aquilo que não aplicamos nas escolas é confrontado com aquilo que a maioria das pessoas respondeu. Basicamente são questões que se faz sobre vários assuntos, como por exemplo os interesses, os valores, questões ligados à personalidade. A cotação é dada em função aquilo que a maioria das pessoas respondeu, ou seja é basicamente uma questão estatística.

JF - Poderia falar sobre algum caso significativo de avaliação psicológica que já tenha tido durante a sua experiência profissional?

CL - Não vou falar de um, mas sim de alguns. Aqui na escola com o que me confronto e há três anos houve assim um caso de uma aluna que eu achei que foi desagradável… É assim o que se encontra às vezes aqui na escola é assim, quer por preferência pessoal, quer por aptidões às vezes os sonhos dos alunos não são os mesmos que os dos pais. E situações que acontecem às vezes aqui, é que os alunos são quase “obrigados” pela pressão familiar e também social, mesmo em termos de escola: um aluno é bom aluno depois quase necessariamente tem de seguir medicina, mesmo que não tenha muita vontade, não quer dizer que não queira estudar, mas há alternativas, por exemplo os cursos profissionais, para certos alunos que têm um certo tipo de maturidade e que gostavam de ser independentes mais cedo, por vezes se calhar preferiam ir por esse caminho. Portanto irem mais depressa para o mundo profissional e depois se quisessem mais tarde tirar o curso superior. Acontece muito isso, e é uma situação que me desagrada, mas que eu tenho de ter muito tacto a trabalhar porque eu sou psicóloga não sou advinha, às vezes aquela história de não quererem estudar neste momento não tem grande fundamento, é um questão de imaturidade, se calhar precisava de esperar uns seis meses ou um ano para ver até que ponto é que havia fundamento naquela escolha, e habitualmente são os pais que ganham porque é mais seguro. O saber não ocupa espaço e o facto de um aluno tirar um curso mesmo que não queira também não vai ficar mais pobre por causa disso. Mas normalmente são os pais que ganham. No entanto é ingrato, é claro que há circunstâncias que eu tenho de dizer aos pais “Ele não tem muita vontade de estudar! Se calhar seria melhor ir para um cursos profissional”, eu não deixo de dar a minha opinião, mas habitualmente como já referi, são os pais que ganham. Mais vale ter um curso mesmo que não se tenho muita vontade de estudar do que não. E há três anos houve uma situação de uma aluno que queria seguir dança e ela não foi, foi para Coimbra, para um curso que não tinha nada a ver, Direito, e depois aquilo não correu muito bem porque ela entrou em depressão. O sonho dela não era o dos pais… Essa situação foi muito chata, porque habitualmente ela por causa da depressão nem está numa coisa nem está noutra…

JF - O que considera mais importante na formação de um psicólogo?

CL - A constante actualização! Estar muito atento, fazer pequenos cursos de “reciclagem”, como em qualquer profissão, mas nesta é mesmo muito importante, porque as coisas estão constantemente a mudar… As pessoas mudam de geração em geração… É preciso estar muito atento a todas estas questões do meio cultural, social, das transformações e fazer estas tais pequenas “reciclagens” de quando a quando…

JF - Quais as cadeiras mais interessantes que frequentou no seu curso?

CL - Claro que isso também tem a ver com o gosto pessoal de cada um mas eu lembro-me que na altura gostei muito de uma que foi dada pelo Dr. Eduardo Sá, que foi psicanálise, embora eu não seja nada adepta dessa área porque há psicologia comportamental e há a dinâmica. A dinâmica vai aos traumas, faz assim grandes interpretações, coisas muito simbólicas, tem a ver com Freud. E a comportamental é mais ver o que é que se passa com a pessoa e ajuda-la a modificar atitudes, hábitos… Eu sou mais assim, mais prática! Mas sei que na altura adorei essa disciplina. E também gostei muito de psiquiatria dada pelo Dr. Vaz Serra porque acho que foi uma das cadeiras onde eu aprendi mais. Nós tínhamos os nossos casos, e naquela altura com vinte anos ter uma pessoa para observar era muito bom. Mas também me abalou muito porque o nosso pacientes eram quase todos muito novos e com problemas psicológicos mesmo muito graves, e sei que foi uma das razões por que não fui para psicologia clínica. Fiquei mesmo muito chocada, eu só pensava “Eu não vou ser capaz!”. Mas foram duas cadeiras que gostei muito: psicanálise e psiquiatria.

JF - Como foi a sua adaptação quando entrou no mundo do trabalho?

CL - Não podia ser melhor! Claro que no inicio, quando acabei o cursos as coisas não correram muito bem. Eu sou cá de Leiria, e nós lá em Coimbra podíamos acabar o curso em Julho ou Setembro e eu pensei se acabasse em Julho teria mais possibilidade de ficar perto de Leiria… Mas o problemas é que nas universidades do país não saiem todos com as mesmas médias, os do norte saiem com médias um pouco mais elevadas e acabaram por nos passar à frente… Eu pensava que ia ficar em Porto de Mós, estava cheia de expectativas, mas foi tudo por agua abaixo! Entretanto concorri para Portalegre e entrei, mas não entrei logo porque estava um pouco indecisa se havia de ir ou não. Mas depois, com tudo isso tinha uma colega minha do liceu que acabou por ficar na mesma escola que eu, ela como professora e eu como psicóloga. Foi muito giro… a escola onde fiquei era espectacular, a cidade era muito pacata, apesar das pessoas serem um pouco fechadas (o que tornou isso também um pouco complicado para mim). Naquela zona, como os psicólogos são raros tal como tudo é raro, viram-me logo convidar para dar aulas na escola de enfermagem. Adorei mesmo a experiência!!!... Ainda hoje tenho alunos que foram meus alunos, que hoje em dia são meus amigos, porque a diferença de idade não era muita e eu também acabei o curso muito cedo, até que eu por vezes, no início era confundida como aluna… Mas considero que me adaptei muito bem, para já porque fui para uma cidade distante, a escola era muito boa… E como logo nos primeiros anos trabalhava como psicóloga e ainda dava aulas tive logo ali uma grande experiência…

JF - Quais as maiores dificuldades da sua profissão?

CL - As condições de trabalho… Nas escolas é muito difícil, fora das escolas não há emprego, e também é muito instável… Somos poucas para muitos alunos e depois eu costumo dizer que não sou bem psicóloga é mais bombeira porque nós apagamos fomos e depois eles voltam a atear… É muito difícil fazer um trabalho do princípio ao fim! Só às vezes, por acaso quando conseguimos acompanhar o aluno do 10º até ao 12º ano, aí sim o trabalho rende. Por vezes aparecem-nos aqui alunos de 11º e 12 anos com alguns problemas e depois nós marcamos uma hora e depois nós dizemos “Se acontecer alguma coisa vem ter connosco!”, mas depois está o “Não Interromper” na porta… São mesmo as condições de trabalho! Por exemplo o gabinete precisava de testes, mas são muito caros; o último que compramos custou cerca de 500 euros e só dava para cerca de 100 alunos porque era por cotação por disquete, ou seja só se usava uma vez… A escola não tem muitos recursos económicos. São muitos alunos, depois não podemos fazer o trabalho até ao fim… Muitas solicitações de varias ordens, depois como este ano não há professora de apoio, quando há planos para fazer eu também tenho de colaborar… E depois acabo por estar divididas entre outras tarefas que não são propriamente as de psicologia. É frustrante!... Mas temos de dar o valor ao que se tem!

JF - Que concelho daria a quem pretende seguir psicologia?

CL - Acho que quem quer seguir deve seguir, desde que esteja informado… Tem de se ser muito tolerante porque nos primeiros anos pode não se arranjar logo emprego… A área da psicologia não está famosa, embora seja uma profissão necessária, aliás os estudos indicam mesmo que é necessária. Mas há um certo desequilíbrio… Em Portugal é que… Em Espanha os psicólogos são como reis, um psicólogo numa escola ter no máximo 600 alunos, aqui não são 600 são muitos mais… Em termos económicos a profissão está mais bem lançada em Espanha. Aconselho, mesmo que não arranje emprego como psicóloga, não ficar parado, eu por exemplo antes de ir para Portalegre tive de estar trabalhar num escritório a nível dos recursos humanos. Pode não ser uma coisa que imaginemos fazer, mas dá sempre para aprender qualquer coisa. A área da psicologia é muito permeável a qualquer tipo de emprego! O que eu aconselho mesmo muito é, nesta profissão corre-se o risco de se ficar um bocadinho obcecado, tem de se conseguir dissociar dos problemas que se atende diariamente, por às tantas já estamos a confundi-los com os nossos. Acho muito importante para um psicólogo a vida inteira, não se esquecer de si próprio. Nestas profissões de ajuda é importante que nos tempos livres façamos coisas diferentes, estejamos com os amigos, desabafar as pequenas coisas que nos perturbam, fazer coisas completamente diferentes, é muito importante esta “limpeza” quer termos sociais como pessoais… Eu acho que um psicólogo, para ser um bom psicólogo a vida inteira tem mesmo de se fazer essa “limpeza”, é um conselho que eu dou…












Psicologia Social




Vanda Cardoso e Ricardo Cardoso são dois psicólogos sociais que trabalham, actualmente, na Cooperativa de Ensino e Reabilitação para Crianças e Jovens com Deficiência Mental de Leiria (CERCILEI).

RC – Poderia dizer em poucas palavras em que consiste a psicologia social?

Vanda – “ A psicologia é estuda o comportamento humano, social porque se foca na sociedade, isto de uma forma muito geral “

Ricardo – “ Basicamente é o estudo da sociedade. Por vezes confunde-se com a sociologia que estuda o todo do grupo, e nós (psicólogos) estudamos a individualidade do grupo, isto é, estudamos o ser humano, o indivíduo num grupo. Analisamos a subjectividade humana, ou seja, esse mundo interno que possuímos e as suas expressões, que são construídas nas relações sociais, pois surgem do contacto entre os homens e dos homens com a Natureza. “

RC – Então, não podemos dizer que a psicologia social é uma fusão entre sociologia e psicologia?

Ricardo – “ Eu penso que a psicologia social é o princípio da sociologia, embora tenha aparecido primeiro a sociologia do que a psicologia social. Mas é um princípio porque nós, o indivíduo, temos um comportamento num grupo, por isso, na minha perspectiva, devemos estudar primeiro nós, o nosso comportamento como indivíduo, só para depois podermos estudar o grupo todo. E sendo assim, não se trata de uma fusão mas talvez complementaridade. “

RC - Que métodos e técnicas são utilizadas na sua prática?

Ricardo – “ Utilizo de forma bastante frequente as escalas de comportamento e questionários que são construídos por nós para avaliarmos os comportamentos que as crianças tem nas residências, o que é que hão-de melhorar, etc. “

RC – Os questionários serão iguais para todos? As características das pessoas são diferentes, dessa maneira, não terão que adaptar de certa maneira os questionários consoante a pessoa em questão?

Ricardo – “ Sim, de facto, há casos específicos... no entanto, estes são construídos com o mesmo objectivo porque constituem um elemento importante da psicologia social, porque isso leva a que o psicólogo conheça melhor a pessoa em questão. E é por isso que se usam frequentemente os questionários.

RC – De que maneira tem evoluído ao longo dos tempos?

A psicologia social é geralmente considerada uma ciência americana. Esta noção deve-se ao facto de ter sido nos EUA que esta ciência teve maior desenvolvimento inicial e foi aí também que adquiriu uma maior relevância tanto em termos científicos como em termos do seu impacto social e cultural. Contudo, também é verdade que, se quisermos encontrar as raízes mais profundas da psicologia social enquanto preocupação científica global teremos que recuar em termos temporais á segunda metade do século XIX e em temos contextuais ao mundo científico europeu, ou melhor, anglo-europeu. Com efeito, os primeiros trabalhos onde, no âmbito da psicologia, se começa a colocar o problema do social enquanto tal, aparecem nesta época na Alemanha com um conjunto de autores.


RC – O que considera mais importante na formação de um psicólogo?

Vanda – “ Em termos de licenciatura acho que é extremamente teórico e nós, a nível prático, sabemos muito pouco. Portanto, acho que se devia investir mais na prática, pois o nosso trabalho necessita muito mais de um fundamento prático do que teórico. Os desafios devem desde cedo começar a ser trabalhados para que possamos ganhar experiência e após concluirmos a licenciatura despendermos de meios mais seguros para trabalhar. “

Ricardo – “ Precisamente Vanda, apenas acrescento que isso se deve aplicar em toda a psicologia e não só à psicologia social. “


RC – Que conselho daria a quem pretende seguir psicologia?

Ricardo – “ (risos) Não vá!

Vanda – “ Sim, não vá! O ser humano é muito complicado e imprevisível e nós facilitamos muito pouco as coisas “

RC – Porquê?

Ricardo – “ Não é fácil. As pessoas têm uma ideia errada no que consiste o trabalho de um psicólogo. Relativamente ao emprego também é difícil, daí a importância do estágio mas tem de se estar receptivo a tudo o que pode aparecer.

RC – Mas existe muitas áreas onde o psicólogo pode actuar. Enquanto que um professor ou trabalha na escola ou dá explicações noutros locais, isso não acontece com os psicólogos. Eles, pelo contrário, têm uma área muito mais abrangente.

Ricardo – “ Sim, de facto, é verdade. Um psicólogo cabe em quase todo o sítio. O psicólogo age em diversas áreas e é importante entender primeiramente onde e como se forma o conhecimento da ciência "Psicologia": a área científica. Dependendo da área em que está especializado, pode trabalhar em prisões, escolas, instituições... “


RC – Se pudessem modificar alguma coisa na sociedade com o objectivo de beneficiar a psicologia social, o que é que fariam?


Vanda – “ Eu diria às pessoas para serem felizes. Se começamos a pensar que as coisas não estão a resultar de uma determinada maneira, há que tentar corrigir o processo que conduz a essa falha; ver o mundo como ele realmente é; sermos nós próprios e tirar o curso que nós gostamos. Estes são alguns passos que nos ajudam a sermos felizes, pois só dessa maneira as pessoas sentem satisfação pessoal. “

Ricardo – “ Se eu pudesse podia um chipzinho na cabeça de toda a gente e perceber que observar o comportamento humano é das melhores aprendizagens que se pode ter em qualquer profissão. “

RC – Mais especificamente. Um dos tópicos constituintes da psicologia social é a solidão. Tendo em conta este tópico, o que se sente quando se sente só?

Ricardo – “ Esta pergunta é muito boa para se fazer a um psicólogo clínico sobre a depressão. Porque a depressão leva a solidão, ao isolamento. No entanto, a solidão também tem um conceito social quando se relaciona com a exclusão de um indivíduo no grupo. Respondendo á pergunta, a frustração é o primeiro sentimento.


RC – Quais os grupos mais vulneráveis á solidão?

Ricardo – “ Os idosos. Um idoso, por definição biológica, é aquela pessoa que tem 65 anos de idade ou mais. Solidão entre pessoas idosas é frequentemente mais comum do que se pensa. O nosso país não tem estruturas para que os idosos não sejam sós.

RC – Eu recolhi uma estatística nos EUA em que se concluía que os jovens estavam muito mais propícios a sentirem-se sós do que os idosos. É possível?

Ricardo – “ Sim, é possível. Aliás, esse facto vai chegar a Portugal. EUA está muito mais evoluído, portanto, os idosos têm outros benefícios que em Portugal não existe. Em relação aos idosos, tem dificuldades motoras em sair de casa e assim, coisa que se tem vindo a superar noutros países desenvolvidos. Em relação ás crianças desde cedo isolam-se nos computadores onde muitas vezes tem conversas com os amigos que não têm directamente, disponibilizam-se e sentem-se mais á vontade. Antigamente, tínhamos que sair de casa para ir conversar com amigos e agora a internet, os jogos de computador, telemóveis substituem as brincadeiras que haviam em tempos anteriores e isso leva a solidão. Portanto, há que arranjar estratégias para combater isso e dinamizar os encontros grupais. Quanto mais convivermos, mais partilha há.


RC – O que fazem as pessoas quando se sentem sós?

Ricardo – “ Choram, ouvem a musica mais melancólica, ou isolam-se cada vez mais que é uma atitude negativa face ao problema “

Vanda – “ Ou parar para pensar. Lembranças do passado tendem em emergir em ocasiões como essas porque são as experiências passadas que são a base da nossa identidade. A nossa identidade está inteiramente relacionada na forma como nós vivemos o presente e estruturamos o futuro “

RC – Qual maneira de quebrar o isolamento?

Ricardo – “ A exclusão é gerada por factores do fórum económico, político e social, tendo desdobramentos específicos nos campos da cultura, da educação, do trabalho, das políticas sociais, da etnia, da identidade e de vários outros sectores. Procurar actividades para afastar esse sentimento. É a atitude mais positiva que se pode ter, isso é que é psicologia. Se não se conseguir, há que tentar procurar a ajuda de um psicólogo. Mas há que ter em atenção que não é chegar a um psicólogo e a situação fica resolvida, o psicólogo irá arranjar estratégias com a ajuda da vontade do paciente para tentar contornar a situação. O psicólogo não faz milagres, mas ajuda, ouve, aconselha e guia o paciente em termos psicológicos e comportamentais.








Psicologia Educacional



Vanessa - Em que medida é que a psicologia educacional se relaciona com a psicologia social?

Vanda - As psicologias estão todas envolvidas, tem tudo a ver; a psicologia estuda o comportamento do ser humano, à partida há toda uma envolvente. A psicologia educacional tem a ver com a psicologia social, com a psicologia clínica…

Ricardo - Por exemplo, liga-se muito a psicologia educacional às escolas. Um psicólogo educacional devia ser um psicólogo social. Porquê? Porque a escola é um meio social, é uma comunidade social. E a psicologia educacional tem a ver com isso. A maior parte das dificuldades de aprendizagem são dificuldades sociais, têm muito a ver com o ambiente familiar, com a comunicação, com o bem-estar…
A ligação que se pode fazer é que as dificuldades de aprendizagem estão muito relacionadas com os processos sociais, com as interacções sociais entre os indivíduos.
Normalmente pensa-se que o miúdo que tem mais posses é mais inteligente do que o outro. Isso não é verdade, mas na maior parte dos casos isso acontece. Acontece uma estimulação, acontece que a estimulação da parte da família que tem mais posses, (normalmente a cultura está a um nível mais acima) vai estimular mais cedo o filho, que fica adaptado mais cedo; enquanto o outro, tem que ser ele a insistir. Se nós começamos a correr mais cedo, vamos chegar mais longe.


Vanessa - Quais as cadeiras mais interessantes que frequentaram no curso?

Vanda - Psicopatologias, adorei… porque eu gostava de clínica…

Ricardo - Eu gostei de psicologia educacional (I e II), dinâmicas de grupo…
como eu trabalhava com os miúdos no ATL, deu-me mais gozo por isso, porque via coisas que estudava. E muitas das coisas que aconteciam, discutia-as com o professor. Há teorias que às vezes não são tão reais quanto isso. E então como tinha a parte prática, discutia…. Deu-me muito gozo a psicologia educacional. Depois gostei de orientação vocacional, daquela parte em que havia as dinâmicas de grupo, em termos não da parte social, mas da parte educacional, da interacção entre o aluno, o comportamento da sala de aula.

Vanessa - Na vossa profissão, lidam com crianças com necessidades educativas especiais. Como é lidar com elas? Exige muita paciência…

Ricardo - E tolerância…bem, a tolerância tem a ver com a paciência.

Vanda - E também, às vezes, trabalho com jovens a partir dos 15/16 anos, a idade da adolescência que é uma fase muito complicada. Há comportamentos que eles têm que às vezes as pessoas não percebem; às vezes fazem uma parvoíce como por exemplo roubar…enfim, fazem coisas menos correctas; e as crianças não conseguem compreender e às vezes também são levadas por isso. É claro que não são coisas correctas, mas fazem parte da adolescência. Faz parte da adolescência portar-se um bocadinho mal; é a irreverência. Não é fácil fazer ver às outras pessoas que de facto há comportamentos que não estão correctos mas aos quais não devemos dar tanta importância.

Ricardo - Em termos das necessidades educativas especiais, isso acentua-se mais, porque o processo cognitivo deles é mais lento e mais escasso e é muito mais difícil as outras pessoas que não estão ligadas directamente à área, compreenderem…e às vezes nós também.

Vanessa - Quais são as maiores dificuldades da vossa profissão?

Ricardo - Acho que é o nível de tolerância que nós temos que ter. Depois, a rapidez de raciocínio e perspicácia.

Vanda - A falta de meios para trabalhar.

Vanessa - Tendo em conta que Portugal é um dos países da Europa com maior taxa de insucesso escolar, o que é que acha que pode ser feito para combater esse insucesso?

Vanda - O estado fornecer mais infra-estruturas para nós podermos trabalhar de melhor forma com os alunos.
Se o estado fornecesse mais infra-estruturas e meios seria mais fácil.








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